A dor lombar crônica (DLC) está entre as condições musculoesqueléticas mais frequentes no consultório de fisioterapia. Estima-se que cerca de 80% dos adultos terão ao menos um episódio de lombalgia na vida, e destes, uma parcela significativa evoluirá para o quadro crônico (>12 semanas). Nesse cenário, a terapia manipulativa da coluna (TMC) — que engloba manipulação (thrust de alta velocidade e baixa amplitude) e mobilização articular — é uma ferramenta amplamente utilizada por fisioterapeutas, quiropraxistas e osteopatas em todo o mundo. Mas até que ponto a evidência científica sustenta seu uso?
Para responder essa pergunta com o mais alto rigor metodológico, a Colaboração Cochrane publicou em 2011 (atualizada em 2013) uma revisão sistemática conduzida por Rubinstein e colaboradores. Foram analisados 26 ensaios clínicos randomizados, totalizando 6.070 participantes com dor lombar crônica. A revisão comparou a TMC com diferentes tipos de controle: intervenções inertes (placebo), TMC simulada (sham), outras intervenções ativas (exercícios, farmacoterapia, etc.), e TMC combinada a outra intervenção versus a intervenção isolada. A qualidade da evidência foi avaliada pelo sistema GRADE.
Os resultados são matizados. A evidência de alta qualidade mostra que a TMC produz um efeito estatisticamente significativo, porém pequeno e clinicamente irrelevante, na redução da dor e na melhora funcional quando comparada a outras intervenções ativas — as diferenças médias na escala de dor foram de -2,76 (a 1 mês) e -3,07 (a 6 meses) em uma escala de 0 a 100. Já quando comparada a intervenções sham ou inertes, a qualidade da evidência é muito baixa, não sendo possível afirmar superioridade. Isso sugere que parte do benefício observado pode estar relacionada a efeitos inespecíficos (expectativa, contato terapêutico). Quanto à segurança, nenhuma complicação grave foi relatada nos estudos incluídos — os efeitos adversos mais comuns foram desconforto muscular transitório e rigidez leve.
Os autores concluem que a decisão clínica de utilizar ou encaminhar um paciente para TMC deve considerar fatores como custos, preferências do paciente, segurança e contexto, e não apenas a magnitude do efeito analgésico, que é modesta.
???? O que levar para a prática
- A TMC tem efeito positivo, mas pequeno, na dor e função da DLC — não espere resultados dramáticos com a técnica isolada
- A qualidade da evidência para TMC vs. sham é muito baixa — o efeito específico da manipulação além do placebo ainda é incerto
- A TMC é segura: os efeitos adversos são leves e autolimitados (dor muscular, rigidez)
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*Referência: Rubinstein SM, van Middelkoop M, Assendelft WJJ, de Boer MR, van Tulder MW. Spinal manipulative therapy for chronic low-back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews 2011, Issue 2. Art. No.: CD008112. DOI: 10.1002/14651858.